Após morte do pai, filho assume legado de afinador de pianos que atravessa cinco gerações em MG

  • 09/08/2026
(Foto: Reprodução)
Após a morte do pai, filho assume legado de afinador de pianos em Itajubá, MG Há coisas que um pai ensina sem precisar dar uma aula. Às vezes, estão nas palavras. Outras, no jeito de trabalhar, de tratar as pessoas ou até de segurar uma ferramenta. Para Carlos Guilherme Quito, de Itajubá (MG), algumas das maiores lições deixadas pelo pai estão guardadas dentro de uma maleta. 📲 Siga a página do g1 Sul de Minas no Instagram São as ferramentas que acompanharam Carlos Quito durante décadas de trabalho como técnico, afinador e restaurador de pianos. Algumas têm mais de 200 anos. Alicates e chaves carregam as marcas do uso e, para a família, nunca foram apenas instrumentos de trabalho. “Uma maleta de ferramenta que representa uma vida”, resume Carlos Guilherme. Pai e filho dividiram o nome, a oficina e o trabalho de preservar pianos que carregavam histórias de família Arquivo pessoal Carlos Quito morreu aos 91 anos, em 24 de maio deste ano, após uma rápida piora provocada por metástases cerebrais. Até pouco tempo antes, mesmo durante o tratamento contra o câncer, continuava viajando pelo país e trabalhando. Foram mais de sete décadas dedicadas aos pianos e a uma profissão que já atravessava gerações da família. Carlos era a quarta geração de técnicos ligados ao universo dos instrumentos. O filho, Carlos Guilherme, de 41 anos, tornou-se a quinta. Agora, o neto Diogo Quito, de 22, se prepara para ser a sexta. A trajetória de Carlos Quito passou por teatros, universidades, conservatórios, igrejas, centros culturais e casas de clientes em diferentes partes do Brasil. Ele também trabalhou no departamento de música da Universidade de São Paulo (USP) e teve contato com instrumentos usados por grandes nomes da música, como Arthur Moreira Lima, Nelson Freire, Tom Jobim, João Donato, Wagner Tiso, Egberto Gismonti, Milton Nascimento e Elis Regina. Entre os trabalhos que marcaram a trajetória da família está a restauração de um piano Blüthner Leipzig, de 1889, que pertencia ao antigo Auditório Mozart Music Hall, da Faculdade Ibero-Americana. Carlos Quito foi a quarta geração da família a trabalhar com pianos e deixou o ofício para o filho, Carlos Guilherme Arquivo pessoal Mas, segundo o filho, para quem conviveu com Carlos, talvez a maior marca não esteja em nenhum currículo. “Ele entrava dentro da casa como profissional e saía amigo das pessoas. As pessoas não queriam que ele fosse embora”, lembra o filho. A relação com os clientes era uma extensão da maneira como Carlos enxergava a própria profissão. Para ele, o piano não era apenas um objeto que precisava voltar a funcionar. Era parte da história de uma família. Por isso, uma restauração podia durar dias. Enquanto alguns serviços poderiam ser concluídos em poucas horas, Carlos permanecia três, quatro, cinco dias na casa de um cliente, dependendo das condições do instrumento e do trabalho necessário. Foi observando esse trabalho que Carlos Guilherme começou a construir a própria relação com a profissão. Aos 91 anos, Carlos Quito ainda trabalhava e viajava pelo Brasil para atender clientes e restaurar pianos Arquivo pessoal O filho que escolheu seguir o pai Apesar de ter crescido em meio aos pianos, Carlos Guilherme não seguiu o caminho do pai por obrigação. Desde pequeno, frequentava a oficina, estudava o instrumento, participava de recitais e convivia diariamente com aquele universo. “Piano é nossa vida mesmo. Em todo sentido. É café da manhã, almoço e janto, piano”, conta. Ainda assim, por um período, o filho construiu outra carreira. Carlos Guilherme estava no Exército, onde se preparava para fazer o curso de sargento, quando decidiu deixar a profissão. O chamado para continuar o trabalho do pai falou mais alto. “Meu pai nunca forçou nada. Ele só foi mostrando e tudo mais. Acho que foi um amor à primeira vista. Eu senti essa responsabilidade também de não deixar isso morrer.” Carlos Guilherme mantém o trabalho que aprendeu com o pai, Carlos Quito, e prepara o filho para a sexta geração da família na profissão Arquivo pessoal A escolha não nasceu apenas da tradição. Carlos Guilherme desenvolveu uma paixão própria pelo ofício e, principalmente, pela restauração. “Eu gostava de ver aquilo que era, entre aspas, velho, que estava deteriorado pelo tempo e tudo mais, voltar à vida.” O pai percebeu o talento do filho. Segundo Carlos Guilherme, chegou a dizer que ele havia alcançado um nível de restauração que o próprio Carlos Quito nunca tinha feito da mesma maneira, especialmente em trabalhos de pintura e recuperação dos instrumentos. A profissão, então, deixou de ser apenas uma herança e se tornou uma escolha. O homem por trás do afinador Um piano pode ter cerca de 12 mil peças trabalhando em harmonia para produzir um único som. A complexidade do instrumento ajuda a explicar por que o trabalho exige paciência, precisão e cuidado. Mas, para Carlos Quito, havia respeito pela história de cada piano, algo ainda mais importante. Havia uma pergunta que, para ele, valia mais do que o preço de mercado do piano: aquele instrumento tinha história? Se tinha, valia a pena restaurar. “Quantas restaurações a gente já fez que a restauração ficou mais cara que o valor do piano, porque era de uma mãe, era de um pai, era de uma avó. Pra gente, tudo tem valor. Até os pianos que, entre aspas, no mercado não têm tanto valor, pra gente sempre teve valor”, conta Carlos Guilherme. Um piano pode sobreviver ao dono. Pode passar de uma casa para outra, de uma geração para outra. Pode permanecer décadas fechado e, um dia, voltar a produzir som pelas mãos de alguém. Restaurá-lo, para Carlos Quito, era também devolver à família um pedaço do passado. Carlos Quito costumava restaurar instrumentos mesmo quando o custo do serviço superava o valor comercial do piano Arquivo pessoal Essa forma de trabalhar também aproximava Carlos das pessoas. O filho conta que o pai era capaz de chegar à casa de um cliente como profissional e sair de lá como amigo. Mesmo depois da morte, as lembranças continuaram chegando. Para Carlos Guilherme, o pai foi muito além do profissional que afinava e restaurava instrumentos. “Meu melhor amigo, meu herói, meu mestre. Meu tudo mesmo.” Quando o silêncio chegou à oficina A morte de Carlos Quito interrompeu uma rotina que parecia não ter fim. Até pouco tempo antes, ele ainda viajava, atendia clientes e trabalhava. Para o filho, o impacto foi ainda maior porque os dois não eram apenas pai e filho. Eram companheiros de profissão, amigos e confidentes. Depois da morte, Carlos Guilherme conta que não conseguia trabalhar. Olhava para os pianos da oficina e chorava. Precisou se afastar por alguns dias antes de conseguir voltar. Ao mesmo tempo em que lidava com a ausência, havia uma oficina cheia, trabalhos atrasados, clientes esperando, viagens para fazer e uma mãe para cuidar. A vida precisava continuar. E continuou justamente pelo caminho que o pai havia construído. Ferramentas de Carlos Quito continuam sendo usadas pelo filho nos trabalhos de afinação e restauração Arquivo pessoal Hoje, cerca de 80% das ferramentas usadas por Carlos Guilherme ainda são de Carlos Quito. A maleta que acompanhou o pai durante décadas continua aberta. Carlos conta que o pai tinha um cuidado especial com ela. Quando viajava, as ferramentas tinham lugar garantido. Se fosse de ônibus, as roupas ficavam embaixo e a maleta seguia protegida. Quando voltava para casa, as ferramentas precisavam ser guardadas. “Ele tinha um amor pelas ferramentas que eu não sei explicar”, conta. A dor ainda é recente. Carlos Guilherme admite que chora todos os dias. Há lembranças que ainda são difíceis de tocar. Abrir uma mala que pertenceu ao pai, por exemplo, pode significar passar o resto do dia chorando. No entanto, no trabalho existe uma maneira de continuar conversando com ele. A promessa A história poderia terminar na quinta geração. Mas, antes de morrer, Carlos Quito já via no neto a possibilidade de continuar o ofício. Diogo Quito, de 22 anos, acompanhava de perto aquele universo e queria aprender a tocar piano e conhecer a profissão do avô. Carlos Quito também queria ensinar. Tentava encontrar espaço na agenda entre viagens e trabalhos, mas o tempo não foi suficiente. Foi no velório do avô que Carlos Guilherme ouviu do filho uma promessa que não esqueceu. “Pai, nós vamos levar o legado do vô juntos agora.” Diogo Quito, filho de Carlos Guilherme e neto de Carlos Quito, decidiu deixar o Exército para aprender o ofício do pai e do avô Arquivo pessoal Diogo decidiu deixar o Exército e seguir com o pai o caminho que Carlos Quito havia percorrido por décadas. Agora, são pai e filho novamente dentro da oficina. E, assim, a sexta geração começa a ser construída. Carlos Guilherme admite que ainda precisa aprender a ensinar. Apesar dos anos de experiência ao lado do pai, diz ter dificuldade para transmitir tudo o que sabe. Talvez porque, nesse caso, ensinar não seja apenas explicar como afinar uma corda ou restaurar uma peça. É transmitir uma maneira de enxergar. Um legado feito de amor Carlos Quito restaurou instrumentos históricos e trabalhou com pianos utilizados por grandes nomes da música brasileira Arquivo pessoal Carlos Guilherme ainda está aprendendo a trabalhar sem o pai por perto. Existem malas que ele ainda não conseguiu abrir, materiais espalhados por cidades onde Carlos Quito trabalhou e lembranças que continuam doendo. Também existe uma oficina que precisa continuar. Antes de morrer, Carlos Quito havia planejado, junto com o filho, contar mais da própria história. Queria registrar o trabalho nas redes sociais, reunir materiais e escrever uma biografia. O projeto não ficou pronto a tempo. Agora, Carlos Guilherme pretende continuar esse plano. Quer preservar a memória do pai e, ao mesmo tempo, mostrar o próprio trabalho. A história começou muito antes dele. Passou pelas ferramentas, pelos pianos restaurados, pelas casas dos clientes e pelas gerações que aprenderam a profissão umas com as outras. Hoje em dia, para Carlos Guilherme, o principal ensinamento deixado pelo pai cabe em uma palavra: “Resumidamente mesmo, sempre falando essa palavra, né? É o amor. O amor por tudo que você vai fazer. Deixar ali sua marca registrada. Você não precisa deixar sua marca registrada com nome, às vezes com uma plaquinha. Mas com sentimento, com amor, fazer as coisas direito.” Após morte do pai, filho assume legado de afinador de pianos que atravessa cinco gerações em MG Arquivo pessoal Veja mais notícias da região no g1 Sul de Minas

FONTE: https://g1.globo.com/mg/sul-de-minas/noticia/2026/08/09/apos-a-morte-do-pai-filho-assume-legado-de-afinador-de-pianos-e-mantem-viva-profissao.ghtml


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